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Adriano de Faria, “Bairro das Angústias – (c/áudio) Olegário Paz

AÇORIANIDADE 176 <div> [Adriano de Faria, "Bairro das Angústias". Aníbal Raposo, "Mar e Natividade"]. <br /><br />PorqueHojeEhSabado<br />2014.01.04<br /></div> <div><br /></div> <div><br /></div> <div><br /></div> <div><br /></div>

BAIRRO DAS ANGÚSTIAS

 
Levo no coração vosso berço
Feito da madeira de navios velhos
Embalado ao som dos rumores do mar
E ao apito triste dos cargueiros;

Vossa infância de meninos sujos e livres
Correndo entre os vagões da doca
Sonhando lutas nos armazéns do porto;

Vossa adolescência transportando fardos e odores
De climas, de bordo dos navios,
Crescendo aventureira
À sombra de mastros e ganhoas;

Vossa maturidade desiludida e sonolenta
Atravessando o relento brumoso das noites,
Fixa nas correntes das baleeiras
Como as algas e lapas dos recifes;

Vossa velhice visitando aos domingos
A Senhora do coração atravessado,
Como as tardes das ruas desertas
Pelo baço calor do sol exausto;

Bairro das Angústias ¬―
Superpopulado, trabalhador e pobre !

Adriano de Faria,
Antigamente,
Horta, edição do autor, 1954.

Adriano Lourenço de Faria (1929), professor, natural da freguesia de S. Pedro do Rio Seco, concelho de Almeida, trabalhou na terra natal, na cidade da Horta e em Coimbra onde reside.