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ALMA AÇÓRICA (1-5) – José Contente

<p><strong><em><br /><br /></em></strong></p> <p><strong>ALMA AÇÓRICA (1)</strong> A partir de hoje, sem nenhuma preocupação de organização especial, vou procurar recontar, sinteticamente, episódios, dialéticas e traços dos Açores e de Açorianos (as),  que me têm impressionado porque ilustram um modo muito próprio de estar no Mundo.</p> <p><br />A Direção Regional da Cultura publicou há alguns anos (2004) a história de um corvino que abalou em 1905 para a América do Sul e saltou do Brasil para outros países contíguos, até se fixar no Chile onde foi engenheiro, empresário/livreiro/editor. Chamava-se Carlos George do Nascimento, foi editor do poeta, Nobel em 1971, PABLO NERUDA (que se queixava de não conseguir ganhar dinheiro com o português da Editora Nascimento...) hoje, ainda há parentes no Corvo e Lisboa de Carlos G. Nascimento e, no Chile vive um neto, o Prof. Mário George-Nascimento, parasitologista chileno de renome, que já participou em trabalhos no Departamento de Oceanografia e Pescas- Faial, da Universidade dos Açores.</p>

ALMA AÇÓRICA (1-5) - José Contente
(S. Miguel, Açores – Ken Smith, 1983)

 

ALMA AÇÓRICA (2) Raúl Brandão ao passar no Corvo terá perguntado a um lavrador que iria para o Caldeirão,  em dia de nevoeiro: “como te orientas com o nevoeiro?”. ” Pelo vento”, responde o corvino. “E se o vento muda de direção”, insiste Raúl Brandão. “Se o vento muda de direção o nevoieiro desaparece”, prontamente retorquiu o corvino”.

ALMA AÇÓRICA (3)  Ao que julgo saber, D. Pedro IV foi o único rei que visitou a ilha de S. Jorge. Fê-lo também para incorporar jorgenses no chamado “batalhão sagrado” que integraram os 7500 Bravos do Mindelo. Fora os que pereceram ou que se fixaram no continente, pelo menos 15 regressaram à ilha. Minha bisavó e minha avó maternas falaram-me de dois dos regressados, José de Sousa Sequeira e Manuel Bettencourt que eram seus familiares.

ALMA AÇÓRICA (4)  Nas trocas de ironias e humores saudáveis inter-ilhas ouvi um terceirense contar a um jorgense: “ouve, conheces a Maria que disse, durante uma missa ao seu Manuel, tens os sapatos trocados, e ele diz, oh tal trapaça e são logo os dois”, replica o jorgense: “mas essa mesma Maria foi ao médico à Terceira e chegou ao cais do Porto Pipas e “mercou” um táxi para levá-la à pensão da Rua de Santo Espírito, não sem antes ter perguntado ao taxista terceirense quanto era (custava), ao que o taxista respondeu “20 escudos”… ela aflita disse: “mas eu tenho muita bagagem”, diz o taxista, “não levo nada pela bagagem”, “então leve-me a bagagem que eu vou a pé”, retorquiu a tal Maria…

ALMA AÇÓRICA (5)   Na saga da emigração mais antiga só havia lugar para levar uma caixa de madeira (baú rudimentar) cujas pegas laterais eram de corda grossa. Sempre achei curioso o facto de ver nessas caixas uma pequena gaveta. Mais tarde, disseram-me que chamavam ESCANINHO à pequena gaveta. Aqui, o emigrante levava, normalmente, o mais significativo para si e família, num acto de amparo ou proteção e até de não esquecimento da sua terra, pelo prolongamento que esses pertences sempre lhe dariam.

(cont.)

José António Vieira da Silva Contente, nasceu nas Velas – S. Jorge em 13 de Junho de 1958. Fez os estudos primários e o antigo 5º ano em S. Jorge. Com 17 anos conclui o antigo 7º ano (alínea f) no Liceu de Angra do Heroísmo. Licenciado em Biologia – Geologia, desde 1981, pela Universidade dos Açores e tem Mestrado em Metodologia  das Ciências pela Faculdade de Ciências da  Universidade de Lisboa. Cumpriu o serviço militar obrigatório no CIAC e depois em Belém- Ponta Delgada. De 1979 a 1992 foi professor do ensino secundário e professor-formador das ex-escolas do Magistério Primário de Angra do Heroísmo e de Ponta Delgada. Desde 1993 assistente na Universidade dos Açores onde foi fundador e Director da Secção de Didácticas. Co-autor do livro Didáctica das Ciências da Natureza editado pela  Universidade Aberta. Em 1996, preparava doutoramento quando foi convidado para o cargo de Secretário Regional da Habitação e Equipamentos do VII Governo Regional dos Açores, cargo que também exerceu nos VIII e IX Governo dos Açores. No X Governo, que iniciou funções em 2008, é o Secretário Regional da Ciência Tecnologia e Equipamentos. Dirigente do Partido Socialista/Açores desde 1995. Sócio fundador da Associação Ecológica Amigos dos Açores e do Forum Açoriano. Casado e tem dois filhos.