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Ana Luísa Amaral `Feitos de Lava` – Olegário Paz (som)

<br /> <p><b>AÇORIANIDADE </b><b>125<br /><br /><b><i>PorqueHojeEhSabado<br /></i></b></b><b>2012.11.10</b></p> <br />[Ana Luísa Amaral, "Feitos de Lava". Viana da Mota-Sequeira e Costa, "Balada"]<br /><br /><br /><br /><br /> <object height="20" width="500" data="http://www.rtp.pt/script/player.swf" type="application/x-shockwave-flash"> <param name="id" value="player" /> <param name="name" value="player" /> <param name="flashvars" value="file=/mcm/mp3/43a/43a35c44136734ad7d9930decf13ac961.mp3&streamer=rtmp://video2.rtp.pt/flv/RTPFiles&tracecall=printTrace&" /> <param name="src" value="http://www.rtp.pt/script/player.swf" /> <param name="wmode" value="opaque" /> <param name="allowfullscreen" value="true" /> <param name="quality" value="high" /> </object>

Ana Luísa Amaral `Feitos de Lava` -  Olegário Paz (som)

FEITOS DE LAVA
Açores, 2009

1.
Há-de ter sido assim:
o princípio do mundo
— antes de os grandes sáurios
invadirem o chão
e os céus

Muito antes
da súbita explosão
que lhes pôs fim

Há-de ter sido assim:
um caldo borbulhante
e os veios roxos,
entre azul e lilás,
a rocha
negra negra negra

— e cor
de fogo

2.
Ou nessas veias:
via sacra de espanto
informe,
a promessa das formas
mais perfeitas

Ou ali antes:
a quase perfeição?

Uma forma de fala
entre o quase trovão
e o ressoar,

o tempo que parou,
sem voz —

3.
Depois,
a lava fria,
lagos da lava fria

— e a perder-se
o olhar,
cratera quase igual
a gelo e lua,
quase sem luz,
o tempo a repetir:
o fim do mundo,
quem sabe
o seu romper

4.
Não tem conforto
o corpo
ao lado da cratera

sabe-lhe a cinza,
sente-lhe o vazio

e a implosão
das veias
e do sangue

5
Esta paisagem
não tem a cor da areia,
mas é cor de vulcão
a sua carne

e de repente,
como em flanco,
o verde em vários
lumes

E o horizonte
tão liso,
como se fosse
orientado a régua

6
Mas nulos são
os pontos cardeais

Onde quer que o olhar,
navegam as estradas,
e o mar sobeja

— sempre o mar —

Sobrando,
campos bordados
a rosa e a lilás,
de mais, de mais
as flores

Não há voz
que resista,

nem coração
que fale

7.
A enseada
de repente
invadiu-se de barcos

pequenos,
coloridas as bandeiras,
quase
uma via sacra

Ou o conforto humano
em luta contra o sal
a lutar contra o frio
do nevoeiro

a lutar contra
o sol

8.
Faltava só
o nevoeiro
aqui

E vinha já de cima,
de antes dos grandes sáurios
dos veios roxos,
do caldo borbulhante

De lá chegara já,
embora omisso
em letra

Nesta letra
que tanto se esforçou
em fogo
e lava,

faltava
ver-se
nula

E o princípio
de tudo
é como um quadro
negro

E é lógico
que a apague
em número:

desenhado
arremedo
de
infinito

Ana Luísa Amaral,
Vozes,
Lisboa, Dom Quixote, 2011.

Ana Luísa Amaral (1956), professora, poeta, natural de Lisboa, reside e trabalha na cidade do Porto.

Imagem de http://www.popgive.com/2008/11/beauty-of-lava.html