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Ângelo Ribeiro: “Minha alma é de criança” (Som) Olegário Paz

AÇORIANIDADE 297 PorqueHojeEhSabado 2016.10.28

Minha alma é de criança:

Corre, brinca, esvoaça,

Passa e repassa,

Não cansa…

Minha alma vive em graça,

Minha alma é de criança.

Ela aí vai de galgada,

Estrada fora,

Empoeirada

E encalmada:

Nada a demora.

Lá vai ela… atravessa…

Um socalco: tropeça.

Salta a sebe enfim — nada a detém!

Desaparece…

Mas, logo, surge além,

Por entre a messe.

Flutua nos trigais

Loirejantes,

Ondulantes,

Baloiçantes…

Galga muros, portais,

E irrompe nas devesas, murmurantes

De folhas secas, crepitantes.

Olha! Vê como corre desvairada!

E, sempre asinha,

Lá vai, doidinha,

Embriagada,

Trepando aos arvoredos,

Devassando os segredos

Dos ninhos, nos olmedos,

A tresloucada!

Minha alma é de criança:

Corre, brinca e não cansa…


Ângelo Ribeiro,

Sonata de evocação,

Lisboa, Liv. Ferin, 1920



Ribeiro, Ângelo Pinto (1886-1936), professor, escritor, natural de Angra do Heroísmo, residiu e trabalhou na cidade natal e na de Praia da Vitória, ilha Terceira, na do Porto e em de Lisboa onde faleceu.