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«ANO BOM» –
Vitorino Nemésio

«ANO BOM» – Vitorino Nemésio

<br /><br />foto de José Borges

ANO BOM

Janeiro, Ano Novo, o tenro gnomo
Do prazer e da mágoa, que caminha
Por estradas sidérias, num assomo
De vento em fúria e chuva miudinha:

Janeiro, a passo e passo, em sombra, como
Uma ronda de espectros se adivinha:
Janeiro frio, com que o tempo momo
Açoita a nossa eira e a nossa vinha:

Deus vos mude, Ano Novo, a entrada agreste:
Seja oliveira a rama do cipreste
E o ódio e a guerra sejam paz e amor

E faças rebentar, como eu desejo,
De cada boca de mulher um beijo,
De cada ramo de árvore uma flor.

Angra, Janeiro de 1918