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Carlos Enes -ARROZ MALANDRINHO

Carlos Enes -ARROZ MALANDRINHO

ARROZ MALANDRINHO

1

Acordei ortographicamente às sete da manhã, à procura da consoante muda que

 baptizou durante a noite os meus segredos adultos. O cheiro frio do lençol confirmou a

suspeita do abandono. Que mal fiz para tão severo castigo, se respeitei a raiz

etimológica do phonema onde o desejo acaricia as vogais sem preconceitos linguísticos?


2

Algo de estranho aconteceu durante o parto, pois o meu destino tem sido andar do fim

para o princípio.

Uotse odautibah. É amu oâtseuq ed oniert. Sam oân axeid ed res amu oãçartsurf

raçemoc olep omsagro e rabaca on midraj ed oãm adad, mes seranimilerp. 


3

A centopeia masturbou-se num muro de cal virgem, batido pelo sol. Só os cães

apadrinharam o rito de fecundação. Quanto tempo leva a floração de uma parede?

A qual das pernas vai o gemido pedir a bênção?


4

Abençoada globalização:

o negro fica pálido de susto

o amarelo, vermelho de raiva

o branco, preto de fome

o vermelho, roxo de frio

a corrupção… essa continua incolor.

                                   a corrupção… essa
continua incolor.    

         

Enes, Carlos Manuel Pimentel, professor do ensino secundário e superior, investigador de temas de história açoriana. Natural de Vila Nova, ilha Terceira, Açores.