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Carlos Enes: O tempo indizível caiu num saco de escorbuto (Áudio), Olegário Paz

Carlos Enes: O tempo indizível caiu num saco de escorbuto (Áudio), Olegário Paz

AÇORIANIDADE 236 PorqueHojeEhSabado 2015.05.02 <embed id="player" height="20" width="500" flashvars="file=/mcm/mp3/6c4/6c4ddea887d4273988fb896b00c09f801.mp3&streamer=rtmp://video2.rtp.pt/flv/RTPFiles&tracecall=printTrace&" wmode="opaque" allowscriptaccess="always" allowfullscreen="true" quality="high" name="player" style="" src="http://programas.rtp.pt/swfjs/player/player.swf" type="application/x-shockwave-flash"/>

O tempo indizível caiu num saco de escorbuto

as hienas beberam bagaço purificado em alambiques

de prata falsificada

o príncipe cuspiu do alto da tipoia

no carreiro das formigas

a nau encalhou na curva do cabo espichel.

Acabou o gengibre, a canela, a noz-moscada

o ouro, o diamante, a borracha,

o escravo, o cacau, o rubi, a turmalina …

Bebo leite de cabra em jejum

para a limpar o bolor das olheiras

colado à insónia

duma história pátria mal contada.

Já estripei as bactérias na guilhotina

engarrafei as mandíbulas do adamastor

e no crematório espalmei o nevoeiro sebastiânico.

Massajo matinalmente os neurónios

com banha de peixe-sapo

para me livrar do colesterol irrevogável.

Icei o punho na manga do fato-macaco

– é na rua que o povo espirra, sangra e urina.

Carlos Enes, Inédito


 

Enes, Carlos Manuel Pimentel (1951), professor do ensino secundário e superior, investigador de temas de história açoriana, natural de Vila Nova, ilha Terceira, reside em Rio de Mouro, Sintra.

Foto: Diário Insular