Este conteúdo fez parte do "Blogue Comunidades", que se encontra descontinuado. A publicação é da responsabilidade dos seus autores.
“Carta Registada” de (e por)
     Sidónio Bettencourt

“Carta Registada” de (e por) Sidónio Bettencourt

<object height="20" width="500" data="http://www.rtp.pt/script/player.swf" type="application/x-shockwave-flash"> <param name="id" value="player" /> <param name="name" value="player" /> <param name="flashvars" value="file=/mcm/mp3/6f9/6f96b23474e1982dc228f51216d7423e1.mp3&streamer=rtmp://video2.rtp.pt/flv/RTPFiles&tracecall=printTrace&" /> <param name="src" value="http://www.rtp.pt/script/player.swf" /> <param name="wmode" value="opaque" /> <param name="allowfullscreen" value="true" /> <param name="quality" value="high" /> </object> <br /><br /><br /><br /><br /><br /><br /><i>Paixão </i>do artista Ferreira Pinto

CARTA REGISTADA

…Havia o infinito e o mar sobre nós, com sol nublado, e dei-te uma pedra negra que rolou do coração, para dentro do ano novo.
Estavas de óculos cor-de-pedra, sentada no ano velho, como se eu tivesse regressado das lavadias brancas, com o teu véu cansado de noiva.
Havia namorados que namoravam, e nós no percurso, sem nos vermos, a olhar um para o outro.
Sabias a doce de mel salgado, e eu, a sal de abelha.
Dizia amor e tu amora, silvestre.
E a terra fria da mornaça de Janeiro, prescrevia o sonho a lacre de sangue fino e frio e pingos de coração, breve e magoado.
Preenchemos então o desejo, que bebi dos teus silêncios.
Deixaste-me tocar, nas tuas mãos secretas, leves e sem anéis brancos, ainda puras de tanto dar e receber.
As tuas mãos de concha, dos filhos a crescerem.
As tuas mãos esguias, das notas soltas do piano triste e adormecido.
As tuas mãos quentes, dos recantos íntimos do nosso corpo, em sabor e desvario.
As tuas mãos, que fizeram o calor do colo frio, da nossa dor no canal.
As tuas, e as minhas mãos.
Feridas.
Tomámos então, com estrangeiros, como amigos estrangeiros, um café chique da cidade em hotel da noite, das noites que gostaria de viver intensamente contigo,
e dei-te uma pedra da cor dos teus olhos pretos, do mar que me deixas, branco de mais de tantas ondas, para poder cantar outra vida …

SIDÓNIO BETTENCOURT, in:” Deserto de Todas as Chuvas “,Ed.Salamandra

____________________________________________________________
"Carta Registada" de (e por)
     Sidónio Bettencourt
O autor Sidônio Bettencourt é natural da Ilha de São Miguel. Jornalista. Trabalha na RDP desde 1976.  Realiza e apresenta diariamente o popular programa “Inter Ilhas” uma grande referência pelo serviço cultural e social que realiza por todo arquipélago. É apresentador do Programa “Atlântida” da RTP Açores,RTP Madeira e RTP Internacional.
Da sua produção literária (prosa poética e poesia) cita-se: Deserto de Todas as Chuvas, A Balada das Baleias e “Já não vem ninguém” (2011). Está presente em inúmeras publicações e antologias, no Dicionário de Autores Açorianos,integrado na exposição Escritas nos Açores Escritas no Mundo.