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Couto Severim, “A tempestade”

Couto Severim, “A tempestade”

Açorianidade – 351 /PorqueHojeEhSabado 2018.01.20 [Couto Severim, “A tempestade”. Duo Anticiclone, “Manjericão”]. Organizado por Olegário Paz

A TEMPESTADE

De sombras calmosas os Ceus se vestiram,
Sorveu a neblina da lua o fulgor,
As lindas safiras perderam seu brilho,
Usurpa-o das trevas medonho palor.

Trincheiras de nuvens, sombrias, espessas,
Do seio disparam do raio o luzir!
As ondas se encurvam co’o pezo dos ventos,
E vem sobre as praias quaes feras rugir!

Trovões pavorosos lá bramam nos ares!
Derrama a procella terrores a flux!
A leve andorinha perdeu o0 seu ninho
Tão cega e confusa do raio co’a luz!

[…]

A linda Zagala, bem junto à lareira,
Um himno descanta que eleva ao Senhor,
E o pranto inocente lhe ondea o rosto,
Desbota-lhes as rosas da face o pavor.

Palpita-lhe o peito… a voz se lhe some…
Confusa… medrosa se prostra ante a Cruz!
As línguas vorazes do raio flamífero
Lhe ceifam dos olhos a límpida luz!

E os brados de «hossana» ferventes desdobram
Co´os mil estampidos d’envolto lá vão!
Impedem-lhe os voos, decepam-lhe as forças
As vozes fogosas d’horrivel tufão!

Couto Severim,
in Revista dos Açores, vol. 2,
Ponta Delgada, 1853.

Severim, José Maria do
Couto (1830-1865) escrivão, poeta, natural de Angra do Heroísmo, viveu na
cidade de Ponta Delgada, ilha de S. Miguel, onde veio a falecer.