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Ernestina Avelar – “O meu Pico” ( Som)

AÇORIANIDADE285 PorqueHojeEhSabado 2016.06.04 [Ernestina Avelar, "O meu Pico". António Chainho, "Improviso em Mi m"]. Som Olegario Paz

O MEU PICO

Pico, meu Pico, eis-te agora
como eu gosto de te ver,
a fronte dominadora
sem tristes véus a erguer!
Rasgou-se o manto cinzento
que envolvendo o firmamento
quási inteiro te escondeu,
e o teu talhe aprimorado
lá vou vendo desenhado
no límpido azul do céu!

Como eu te vejo, enlevada,
teu véu de ouro cobrir!
que linda cinta nevada
vem o teu cólo cingir!
Dize-me tu – não se acha
doce augúrio nessa faixa
de transparente, alvo tul’?
Não prediz ela bonança
num prado cõr de esperança,
num céu azul, muito azul?

Prediz-nos serenidade
no espaço, na terra e no mar;
fala-nos na suavidade
dumas manhãs d’encantar!…
Mas sombrio capacete
se acaso cobre, promete,
profetiza o temporal;
a guerra dos elementos,
a fúria solta dos ventos
destruidora, inda mal!

Mas hoje não é meu Pico
o profeta ameaçador!
hoje extasiada fico
diante do seu primor.
Hoje é lindo panorama
que as vistas atrai e chama
com atractivos sem fim!
toda a graça que apresenta
toda a beleza que ostenta,
tem sempre encanto para mim.


Ernestina Avelat,
in Ensaios Poéticos, Horta, Edição da Família, 1949,
Tiragem virtual de Davide Avelar, Nova Iguaçu, 2047.


Avelar, Amélia Ernestina Avelar (1849-1887), poeta, natural da vila da Madalena, ilha do Pico, residiu em Moçâmedes e em Luanda, Angola, e na cidade de Angra do Heroísmo onde faleceu.