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Havia uma aura…
António Fournier

Havia uma aura… António Fournier

<img src="http://img.rtp.pt/icm//thumb/phpThumb.php?src=/images/2d/2daa0b53ff85121e8f1c1f4c8593db15&w=420&sx=0&sy=0&sw=360&sh=241&q=75" /><br /><br />"<i> Dizia-se que ela estava em convalescencia, e esperavamos todos que fosse só uma fase transitória. Julgo que sublimávamos o medo de a perder. A força do seu espìrito nunca esteve tão forte! Enchia o coraçao de alegria.<br /> Mas era já o canto do cisne."<br /></i><br />António Fournier<i>,</i>escritor madeirense<br />    Professor da Universitá di Torino,Itália<br />    13 de junho

Havia uma aura na forma como avançava, na impressão que provocavam aquelas rodas enormes com que se deixava transportar porque ainda assim era importante enfrentar a cidade dessa forma, com a coragem dos gestos simbólicos, como os velhos chefes gauleses em cima do seu escudo de tantas batalhas. Isso atraía irresistivelmente os olhares para ela, as pessoas voltavam-se para vê-la passar, rodeavam-na, procuravam o contacto. Não, não era piedade, era algo sublimado e sincero: o facto de aquele ser dotado de nobreza de ânimo, transportar na sua luminosa fragilidade um pecúlio tangível de vitórias e derrotas, tocava o âmago de todos nós, ameaçava de repente a enciclopédia eterna do efémero com que construímos a nossas ilusórias certezas. A voz era a mesma de sempre, a força do espírito zurzia, e a sua imagem mais alta perpetuava-se na luz daquela tarde primaveril, não tem ainda duas semanas. Havia como que o prenúncio de um vazio iminente, o medo em todos nós. As pessoas abraçavam-na, tiravam fotografias, pediam-lhe autógrafos, mas só os jacarandás da avenida tinham realmente percebido: era um adeus e choravam já. As flores lilases caíram ininterruptamente durante toda aquela tarde, juncando a avenida de um tapete púrpura. Uma flor caiu no seu ombro quando à noite em frente do palco, encegueirada pelos projectores, recitava de cor um poema, como que a convocar os seus amigos dilectos para a ajudarem a prolongar o canto do cisne, como que a chamar um a um o pequeno círculo dos seus poucos soldados sobreviventes para cerrar fileiras contra as trevas. Disse-lhe: valeu a pena viver este dia para te ver assim! E ela sorriu e abraçou-me. Há algo de imperecível na recordação, que não brota ainda do veio fundo da nostalgia, mas do fulcro luminoso de uma presença que teima em não se apagar. Não foi a mim que ela autografou o seu último livro, que trouxe comigo na bagagem de volta para Itália. Foi ao Rúben, filho de um amigo meu. A ele um dia contarei quem foi a pessoa que o assinou, com o orgulho e a ternura de ter partilhado um Tempo inesquecível.
Um beijo, Maria Aurora, até ao meu regresso.

António Fournier
Havia uma aura...
António Fournier
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Crédito e Legendas:
1. Primavera Funchal,de Urbano Bettencourt
2.Leão Lopes (Cabo Verde,África),Tucho Calvo (Galicia),L.Nunes e António Fourier(Portugal/Itália),Colóquio do Funchal,2006.Foto de Juan Carlos Sancho