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Heitor Aghá Silva, “Sombras da vida” – (c/áudio) Olegário Paz

<b>Açorianidade – 159 </b> [Heitor Aghá Silva, “Sombras da vida”. Cats, “Jellicle Ball”] <div><br /><b><i>PorqueHojeEhSabado</i></b><br /><b>2013.09.07</b></div> <div><b><br /></b></div> <div>*********************</div> <div><br /></div> <div><br /></div> <object height="20" width="500" data="http://www.rtp.pt/script/player.swf" type="application/x-shockwave-flash"> <param name="id" value="player" /> <param name="name" value="player" /> <param name="flashvars" value="file=/mcm/mp3/b57/b579f81decd8c97e1c355e4739cd717b1.mp3&streamer=rtmp://video2.rtp.pt/flv/RTPFiles&tracecall=printTrace&" /> <param name="src" value="http://www.rtp.pt/script/player.swf" /> <param name="wmode" value="opaque" /> <param name="allowfullscreen" value="true" /> <param name="quality" value="high" /> </object>

Sombras da vida

 A cidade enrosca-se timidamente

 na noite de breu
 enquanto pelo ar adejam, subtilmente,
 as sombras fantásticas do medo.
 Algures numa taberna de má nota,
 um pintor, boémio e sonhador,
 desenha no espaço, com a ponta do cigarro,
 os delicados traços da vida.
 Seu pensamento é uma bolha de fumo
 que se espirala no ar. 
 Seu pensamento é uma bolha de nada
 que procura em vão expandir-se
 para além do sórdido recinto
 e fica apenas pairando, molemente,
 sobre um montão de garrafas.
 No outro extremo da rua uma fera
 com feições humanas galga a quatro e quatro
 os íngremes degraus que conduzem
 à mais cega e descomunal loucura – o suicídio.
 Um carro freia bruscamente…É mais um 
 que chegou ao final de mais uma etapa,
 talvez a última.
 Outro acelera furiosamente. 
 É mais um que inicia a longa e penosa
 jornada da vida. Mais um sonho
 que se evapora no ar
 a par do esperançoso roncar de um carro
 que a distância reduziu a um ponto negro.
 Num quarto cor de rosa
 entalado entre as quatro paredes
 de uma maternidade uma criança
 abre pela primeira vez os meigos olhos
 e fita, transida de horror,
 a face oculta da  vida… e chora,
 chora desconsoladamente.
 A noite escura e feia não tem mais fim.
 No ar continuam adejando, subtilmente,
 as sombras fantásticas do medo. 
 E o vento, o vento é um cachorro 
 que ulula lugubremente pelos ermos.  
Heitor Aghá Silva, Pedra de toque, Horta, ed. do Autor, [1992].
Heitor Aghá Silva é nome literário de Heitor Humberto da Silva, (1954), bancário, poeta, ensaísta, é natural da cidade da Horta, ilha do Faial, onde reside e trabalha.