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Impressões do Real – Dora Nunes Gago

Como refere Dora Nunes Gago, em Prefácio à obra, "O título Impressões do real remete-nos, de certo modo, para a poesia de Cesário Verde, cujo ponto de partida preferencial é o mundo real, o quotidiano que serve de força motriz para os mais diversos sentimentos revelados pelo poeta. Do mesmo modo, é também nos momentos vividos e sentidos na tessitura dos dias, captados de modo impressionista, ou seja, filtrados pela sensibilidade e pela subjectividade da autora, que se enraíza a poesia de Arlinda Mártires".







Impressões
do Real
  de Arlinda Mártires

 O título Impressões do Rea lremete-nos, de certo modo para a  poesia de Cesário Verde, cujo ponto de partida
preferencial é o mundo real, o quotidiano que serve de força motriz para os
mais diversos sentimentos revelados pelo poeta. Do mesmo modo, é  também  nos  momentos vividos e sentidos na tessitura dos
dias, captados de modo impressionista, ou seja, filtrados pela sensibilidade e
pela subjectividade da autora,  que se
enraiza a poesia de Arlinda Mártires. 
     A palavra "Saudade"  confere o título ao primeiro poema,  evocador das "manhãs soalheiras", do "orvalho
dos quintais", do "cheiro da terra molhada" , dos "gatos nos beirais"…  e nestes instântaneos da vivência quotidiana
rural do Alentejo, a saudade intensifica-se, consubstanciada na imagem da Mãe. Além
disso, também a solidão e o amor  se
aliam  à 
nostalgia de um tempo perdido que, de forma "proustiana"  o sujeito poético procura constantemente ("Dou
por mim/ uma tristeza de pedra (…)/ Busca do Tempo perdido / sem retorno").
     Múltiplas vivências percorrem as
partes desta obra  intituladas  "gente" e "lugares" que delineiam  vivências e experiências configuradas sempre
por um profundo humanismo e habitadas por gente de carne e osso. Nesta esteira,
em "festividades",  encontramos as
"festas populares" como o S. João, o "Dia de Todos os Santos", dedicado
precisamente a Cesário Verde, no qual, numa deliciosa sinfonia de sensações, a
relembrar as sinestesias usadas por este poeta, pois " E  a natureza prenhe,  sem dor,/Abre-se em bouquets floridos".
     Uma outra revelação desta dimensão
humana  da obra de Arlinda Mártires materializa-se,
de modo diferente, "na senda da poesia barroca" na qual se dá voz à crítica
pessoal e social , como sucede por exemplo em "a um irmão" que vive "na mais mísera
sujidade" e que "amante da carne fresca/ passa os dias a caçar". E, no final,  ainda em dois poemas eróticos que materializam
o amor convertido, no desejo e na carne, em poesia.
           
      Em
suma, estas "impressões do real", tecidas através das linhas da memória, são
habitadas pela saudade, a lembrança, o "roçar dos pássaros" e das rosas –
imagens luminosas, cujo brilho se pode intensificar através da acção alquimica
do amor. Assim, o quotidiano, a Natureza e as gentes, filtradas por uma
sensibilidade ímpar convertem-se em 
poema, espelho da vida que se rememora, actualiza e desvenda a cada
instante, já que, tal como referiu Alberto Caeiro: "A espantosa realidade das
coisas / É a minha descoberta de todos os dias".
 
 
  
Dora Nunes Gago