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Inês Botelho, três poemas – (c/áudio) Olegário Paz

Açorianidade – 261 PorqueHojeEhSabado 2015.12.19

Açorianidade – 261 [Inês Botelho, três poemas. Ornelas do Rego e Henrique Matos, “Música de Reis”].



                para a Helena e o José Carlos Frias

Uma pomba branca
                                    
Uma pomba branca
balança no pensamento
calma e descansada
flutuando no ar
fresco e suave, como
uma brisa leve.
E todos os dias tem por
destino o mar.


Os hábitos do rapaz solitário

Todos os dias à porta
da padaria encontro
um rapaz que pega
na guitarra e se põe
a tocar com a batida
no pé, assobiando baixinho.
Mas no fim do dia, quando
as praças e mercado começam
a ficar desertos, vagueia até
uma esquina e aninha-se
para dormir e preparar
o dia seguinte.

                  para a Daniela Gomes 


Um gato invulgar

Sempre que passava pelo
parque natural da rua
da arte, encontrava um gato
preto com pintas vermelhas
a que chamava o gato do relvado.
Nos dias em que o sono
o enrolava na noite, as nuvens
serviam-lhe de companhia e o céu
de abrigo. Era o que tinha aquele
gato com frio. Quem por lá passava
não via o animal!
Até sozinho passava
o Natal.

Inês Botelho, O deserto do papel, (Edições da Casa1 ), Ponta Delgada, 2015.

1«Contando sempre
com o total envolvimento da autora, [os poemas] sofreram alterações muito
pontuais, que consistiram sobretudo em pequenos ajustes do foro gramatical". 



Botelho, Inês Pereira (2004), estudante do ensino básico, poeta, é natural da cidade de Ponta Delgada, Ilha de S. Miguel, onde reside.