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Este conteúdo fez parte do "Blogue Comunidades", que se encontra descontinuado. A publicação é da responsabilidade dos seus autores.
Imagem de “Janela de Varrer ” – A crônica de
João Paulo SILVEIRA DE SOUZA
Comunidades 16 nov, 2009, 18:19

“Janela de Varrer ” – A crônica de João Paulo SILVEIRA DE SOUZA



Santa Catarina é o Estado convidado da
55ª Feira do Livro de Porto Alegre(Rio Grande do Sul), o maior evento literário do sul do País. E o autor homenageado é o contista e cronista catarinense nascido em Florianópolis há 76 anos  João Paulo Silveira de Souza. Fundador de publicações culturais na década de 40 e integrante do grupo modernista O Sul, Silveira de Souza publicou 13 livros,sendo o mais recente Janela de Varrer (2006). Entre seus livros publicados estão O Vigia e a Cidade (1960); Uma Voz na Praça (1962); Quatro Alamedas (1976); Os Pequenos Desencontros (1977); O Cavalo em Chamas (1981); Canário de Assobio (1985); Rumor de Folhas (1996); Relatos Escolhidos (1998); e Trololó para Flauta e Cavaquinho (1999), esse em parceria com Flávio José Cardozo.
Membro da Academia Catarinense de Letras, o escritor exerceu diversas atividades  culturais, sendo considerado um dos ícones da literatura catarinense contemporânea.
Suas crônicas trazem a picardia, a graça da prosa curta. Pratica a crônica como gênero de eleição e o faz com grande mobilidade e poder de comunicação. Domínio verbal, lirismo, humor sutil, humanismo e sedução são qualidades inerentes a sua obra.

Lélia PS.Nunes
15 de novembro de 2009

                              Janela de Varrer

Lembro que o primeiro poema que conheci de Elizabeth Bishop, publicado num suplemento literário de jornal, dizia que a arte de perder não é difícil de apreender. Lose something every day (perca algo a cada dia), aconselhava ela, num dado verso do poema. Na ocasião recortei do jornal aquele poema para conservá-lo entre os meus guardados, não somente porque havia ali uma realizada poesia, mas também porque ele confirmava uma coisa que, de certo modo, eu já conhecia desde garoto. Por isso não me preocupa agora o fato de algum tempo mais tarde haver perdido aquele recorte.
Aos onze ou doze anos de idade, em Florianópolis, a rua Conselheiro Mafra era para mim um caminho habitual e diário. Estou falando, é claro, dos anos 1944 e 45. Eu saía da Bento Gonçalves, conhecida também como Beco do Segredo, usando calças curtas e na maioria das vezes de pé no chão, e circulava pela redondeza, Felipe Schmidt, Conselheiro Mafra, o caminho para o Mercado, o caminho para os trapiches e praias da Baía Sul. Como se dizia então, eu ia às ruas para “vadiar”, o que mais ou menos ainda faço até hoje. De todos esses caminhos, a Conselheiro Mafra era inevitável: ali ficavam o armazém, a padaria, as portazinhas que vendiam frutas e legumes, dos quais todos da rua (com exceção de alguns ricos, pois esses são animais diferentes) éramos “fregueses de caderno”. Aquele era um desses tempos que, para nós, o mundo não passa de uma caixa mágica a transbordar espantos.
Entre os fortes espantos da época, recordo de dona Carlota. Era uma senhora de idade, cabelos embranquecidos, gorda, de olhos verdes, que ficava dias inteiros debruçada à janela de sua casa — uma das casinhas geminadas de porta e janela que ainda hoje se vê na Conselheiro Mafra — a espiar a rua. O que me surpreendia não era o fato de ela permancer tanto tempo à janela a olhar aquela rua pobre de novidades e movimentos. O que me surpreendia era que ao passar pela calçada diante dela, nascia em mim a estranha impressão de que dona Carlota não estava vendo nada. Os seus olhos verdes pareciam perpassar pelas coisas sem ver, embora ela não fosse cega. Era como se desgostassem, ou varressem, as imagens do mundinho pequeno à frente deles, para visualizarem algo mais íntimo, mais essencial, que só ela, dona Carlota, conseguiria admirar. Então compreendi, ou imaginei então, que dona Carlota ficava tanto tempo à janela exatamente por isso, para varrer coisas que não mais lhe interessavam. Aquela era uma “janela de varrer”.
Fica subentendido que, a partir daí, eu próprio fui criando as minhas janelas de varrer. A idéia me pareceu fantástica e exeqüivel, duas qualidades raras na maioria das idéias. Comecei varrendo o medo pelas notas baixas no colégio, varrendo a importância mesma do colégio. Em seguida, varri o desprezo por mim das garotas que eu curtia. Varri vários dias de tristeza ou tédio. Mais tarde varri as doutrinas religiosas e os preconceitos de qualquer espécie, raciais, ideológicos, sexuais. Varri o respeito pelos políticos. Hoje, na medida em que o mundo ou a mídia me saturam a alma ou me corrompem o espírito, eu vou varrendo e varrendo. Certa ocasião, confesso, pensei em varrer Deus; mas daí me dei conta que ninguém sabe quem é Deus, que o máximo que se pode dizer dele ou Dele foi dito pelo místico Bayazid de Bistun e isso, pasmem, à maneira de Guimarães Rosa: “Fui de Deus em Deus, até que eles gritaram de mim em mim: ó tu eu!” É impossível varrer isso.
O poema de Elizabeth Bishop a que me referi no início desta arenga, valeu pela força da poesia, mas se ela foi perita na arte de perder, eu me tornei perito na técnica de varrer, e ambos estamos com a verdade. Se alguém acaso não concordar com as nossas verdades (elas são tão diversas e contraditórias), que as percam ou varram.

Crédito Imagens:
1. campanha publicitária da 55ª Feira de Livro de Porto Alegre; 2. foto de S.Souza é de Francine Canto

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