ALMA DAS COISAS
Talvez, talvez o cardo, na montanha,
sinta mágoa, como eu, assim vivida;
que o mar, em sua força desmedida,
seja outro ser que pensa, outra alma estranha.
Talvez, talvez a fonte, ao vir da noite,
experimente o alívio, a sensação
de quem penetra noutra região,
num outro Mundo, que a nossa alma acoite.
Quando assobia o vento, às rajadas,
parece-me escutar almas penadas,
espíritos cativos de outros anos!
Talvez, no outono, a folha que tombou,
lamente a cor e a vida, que deixou,
e tenha, como nós, seus desenganos!
A voz dos tempos, Barbosa e Xavier, Braga, 1988.