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Manuel Barbosa, “Revolta” – Olegário Paz

<p>Açorianidade - 141  [Manuel Barbosa, "Revolta". Zeca Afonso, "Canto Moço"].<br /><br /><i>PorqueHojeEhSabado </i>2013.03.02</p> <p> </p> <p> </p> <object height="20" width="500" data="http://www.rtp.pt/script/player.swf" type="application/x-shockwave-flash"> <param name="id" value="player" /> <param name="name" value="player" /> <param name="flashvars" value="file=/mcm/mp3/7da/7da0b2fa99d3290b150da8101f1d5fd71.mp3&streamer=rtmp://video2.rtp.pt/flv/RTPFiles&tracecall=printTrace&" /> <param name="src" value="http://www.rtp.pt/script/player.swf" /> <param name="wmode" value="opaque" /> <param name="allowfullscreen" value="true" /> <param name="quality" value="high" /> </object>

Manuel Barbosa, "Revolta" - Olegário  Paz
(James Ensor – 1888-1949)

REVOLTA

 

Quando a sombra da noite amarga vem descendo,
Quando os braços do sono estreitam o hemisfério,
Eu vou tristonho e só fitar o quadro horrendo
Da desgraça a gemer sob o manto sidério.

Oh é precisamente aqui, nestes montões
De lodo e podridão chamados cidades,
Onde domina o ouro e a fúria das paixões,
Aqui é que se vê mais vis iniquidades.

Aqui é que o leão chamado capital
Se alimenta feroz da vítima pobreza,
Espalha em toda a parte os gérmenes do mal
E tem em toda a parte as honras da nobreza.

Pelos becos divago, esquálidos, infectos,
Onde a miséria e a lama à noite vão gemer;
E os meus olhos febris, de lágrimas repletos,
Têm visões de vingança horrendas a tremer.

Aquelas pobres mães não hão-de acalentar
Os filhos na aversão aos déspotas do ouro?
Não lhes dirão os pais que foram trabalhar
Para os cresos venais encherem o tesouro?

E o Cristo, o meigo Cristo, o pai da humildade,
No olvido há-de ficar, bem como um louco velho
Que veio pregar em vão a crença na verdade
Posta em letras de luz nas folhas do Evangelho? 

Oh nunca, nunca! E enquanto a minha humilde voz
Puder opor um não ao mundo que delira,
Hei-de ajudar, ardendo em desespero atroz,
A queda da opressão do povo, da mentira.

 

(1922) 
Manuel Barbosa, Incerta Via, Ribeira Grande, Edição do autor, 1953.

 

Manuel Barbosa (1905-1991), advogado, escritor, poeta, natural da cidade de Ribeira Grande, ilha de S. Miguel, trabalhou na terra natal, na cidade de Ponta Delgada e na vila de S. Brás de Alportel, Algarve, onde veio a falecer.