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O Brasil de Todos os Sonhos — uma divagação
EDUARDO BETTENCOURT PINTO

O Brasil de Todos os Sonhos — uma divagação EDUARDO BETTENCOURT PINTO

<br /><br /><br />"—<i> <b>O mar dos Açores chega até aqui! Estamos em casa</b></i>."<br /><br /><br /><br /><br />As fotos  entrelaçadas com a linda crônica do poeta Eduardo Bettencourt Pinto,na visualização possível do vosso sonho de ontem e o nosso de hoje.<br />Uma comunhão ATLÂNTICA com muitas mãos e braços se encontram num grande abraço que ousei também sonhar e realizar.<br />                                         Lélia Pereira da Silva Nunes<br />                                         da Ilha de cá,julho de 2009<br /><br /><br /><br />O Olhar distante da mulher a caminho do Pico...ao amanhecer<br /><br /><br /><br /><br /><br /><br /><br /><br />            <br />

A costura demográfica esticava nas ilhas açorianas. Não era de ombros a roçarem-se na rua ou nas igrejas sob a luz cândida das velas que os açorianos se inquietavam, ou ainda das pequenas casas de comércio onde as vozes se encontravam, sobretudo o branco olhar das mulheres. Era aquela corrente escura, íntima, pela qual transitavam os pensamentos, as perspectivas. As ilhas, porém, eram mais do que a sua terra: constituíam uma sensibilidade, um modo de estar.

Alguns, os mais aventureiros, sentiam-nas porém como barcos ancorados num oceano sem fim. Olhavam os filhos e questionavam o amanhã. No entanto estava ali toda a história das suas vidas. Uma angústia sem limites pesava-lhes no coração perante a hipótese de saírem dali. Acordar todos os dias com o mar rente aos pés e o vento nas mãos deixa na pessoa outro estuário de percepções. E eles sabiam-no.
O Brasil de Todos os Sonhos — uma divagação
EDUARDO BETTENCOURT PINTO
Os muros das suas casas eram as fronteiras de um mundo conhecido, seguro e previsível. Das janelas observavam o crescer das estações e os pequenos rituais dos seus quotidianos. Nas ruas, estreitas e empedradas, a humidade luzindo na sua polidez de passos e Tempo percorrido, adivinhavam quem passava. Os nomes eram como tochas ardentes no espírito, fotografias emocionais de vizinhos e familiares guardadas na memória, geração atrás de geração. Como fechar de súbito as malas e enterrar, como páginas mortas de um romance nunca lido, tudo aquilo?
Mas foram.
Primeiro notaram o cheiro da terra. Depois a cor, um tom de sangue fértil que corria dos seus pés até ao horizonte.
Um disse, abraçando a mulher e os filhos:

— O mar dos Açores chega até aqui! Estamos em casa.   O Brasil de Todos os Sonhos — uma divagação
EDUARDO BETTENCOURT PINTO
Então, sobretudo os que ficaram na Ilha de Santa Catarina nesse longínquo Janeiro de 1748 começaram a edificar as suas novas vidas segundo o padrão ilhéu: mantendo os rituais da sua religião, aquele profundo sentido de grupo que trouxeram das suas freguesias, e as palavras do passado cujo sentido não se perdeu na fogueira de um novo léxico.

Hoje, séculos depois, amando com paixão o Brasil, os descendentes desses pioneiros açorianos regressam à memória dos Açores.

O Brasil de Todos os Sonhos — uma divagação
EDUARDO BETTENCOURT PINTO
 Trazem consigo as suas guitarras, a sua música e poesia. O seu modo de ser tropical. Nas procissões, cálidas e inesgotáveis, adejam as suas preces. Agradecem o sol dos novos dias entre aquele pulsar de ondas do mar que trazem na voz. Nela reboam coisas antigas, que são a identidade e a empatia de um povo e os cânticos profundos de um oceano nunca esquecido no rumor das veias.

O Brasil de Todos os Sonhos — uma divagação
EDUARDO BETTENCOURT PINTO
                                      

Eduardo Bettencourt Pinto nasceu em Gabela, Sul de Angola, em 1954. Viveu em vários países após 1975, residindo actualmente no Canadá. É funcionário estadual, consultor informático e editor da revista literária Seixo review, na Internet. Escreve para publicações no Canadá, Estados Unidos, Portugal e Brasil. Publicou vários livros de poesia e ficção. Está representado em várias antologias, nos Estados Unidos, Reino Unido, Portugal e Brasil. É membro do P.E.N Clube Português. O seu livro mais recente, Travelling with Shadows uma edição bilingue (Português-Inglês), foi lançado recentemente no Canadá.
Página do autor: http://www.eduardobpinto.com

Notas: Texto publicado originalmente na Revista Magma,nº7, editada pela C.M. das Lajes do Pico,2008. Comemorativa aos 260 anos do Povoamento Açoriano no Sul do Brasil.

           Fotos/legendas:1.AÇORES: Travessia do Canal Faial-Pico; Fajã,Ilha de São Jorge (2008). 2.SANTA CATARINA: Praia das Palmeiras;  Descendentes açorianos do Rio de Janeiro e Santa Catarina dançam a comunhão fraterna do presente; Praia do Pântano do Sul (2009)
 Imagens: LPSNunes