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“Olhai os lírios do campo” –  Mário T Cabral

“Olhai os lírios do campo” – Mário T Cabral

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CABRAL, Árvore Mística,  2013

MENINO JESUS ENTRE OS DOUTORES
Mário T Cabral, 2013

39. MEDITAÇÕES
l) “Olhai os lírios do campo”

Muitas vezes faz-se a ideia de que o Cristianismo tem o peso de uma rocha e que a Igreja é um mamute poeirento e sem vida natural, onde uma pessoa acabará por sofrer de asma.
     Também é comum confundir a Idade das Trevas com a Idade Média, passando grosseiramente por cima dos séculos. Por mais que não seja, aos menos que se olhe para as iluminuras, atendendo ao nome e ao muito ouro e luz que usam.
     Muitas vezes supõe-se que os crentes não o são por livre escolha e que vivem agrilhoados a tradições e peias antinaturais. É melhor irem ao oculista. Era para as igrejas terem mais gente que o rendimento mínimo. Isto é chão que já deu uvas, senhores; se as deu, alguma vez.
     Não deixa de ser engraçado que os que assim concluem bastas vezes proponham uma sociedade com certo sabor messiânico, como é o caso dos hippies e dos verdes de todos os tempos. Devem ter-se esquecido de “olhar os lírios do campo”.
     Ou talvez não – talvez que não resistam ao apelo do Mestre, embora não tenham a garra suficiente para o sermão da montanha por inteiro. Então fazem como a raposa da fábula, declarando que uma coisa é Cristo, outra a Igreja.
     Mas nós, católicos, não temos nada que estar reféns destes chavões bolorentos mais antigos que a Salve Rainha mal rezada. Qualquer dia pedem-nos para usar patilhas e calças à boca-de-sino.
     Se há alguém que tem um líder revolucionário somos nós! O seu a seu dono, faz favor! Nietzsche era protestante e Marx e Freud judeus; estavam a falar das famílias deles, não da nossa, da qual não sabiam nada de nada. E já vimos a força deles.
     Quanto a nós, “olhamos para os lírios do campo” e não trocamos por nada deste mundo a liberdade que nos foi dada no Batismo. Era só o que mais faltava voltar à escravidão do Egito, por causa dumas cebolinhas!
     Às vezes apetece perder a cabeça e ser insensato, como Paulo: quem pensam que são? Olhem-se ao espelho. Mas a verdade é que somos tão felizes, mas tão felizes (e não só no Twitter), que não temos outra saída a não ser convocá-los para o grupo.
     Vá lá, por favor: leiam o sermão da montanha, que nós consideramos uma síntese do Evangelho. Só uma vezinha. Vai uma aposta que até reconhecem que nunca viram nada mais louco?
     “O meu jugo é suave e a minha carga é leve”. Eles pensam: “Como é que a Cruz é leve e suave?” Perguntem aos atletas quando estão no podium a ouvir o hino nacional. Se não conhecerem nenhum, perguntem aos pais dos licenciados.
     Não vale é arrancar a flor do lírio para pôr no cabelo, descontextualizada.
     Ela murchará.

Mário Cabral Natural da Terceira, Açores, é  Doutor em Filosofia Portuguesa Contemporânea, pela Universidade de Lisboa, com Via Sapientiae – Da Filosofia à Santidade, ensaio publicado pela Imprensa Nacional – Casa da Moeda (2008). Para além do ensaio, publica poesia e romance. O seu último livro de ficção (O Acidente, Porto: Campo das Letras) ganhou o prémio John dos Passos para o melhor romance publicado em Portugal em 2007. Está traduzido em inglês, castelhano e letão. Também é pintor.