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Pedro Monteiro, “Bendita maldição”

AÇORIANIDADE 288 PorqueHojeEhSabado 2016.06.25 Pedro Monteiro, "Bendita maldição". António Chainho, "Canto da sereia" Som, Olegário Paz


Bendita Maldição

Só me resta ser poeta
nesta ilha abandonada
fazer do mar uma festa
e de mim coisa de nada.
Tenho ainda arte e vento
noite escura e tentação
achas doces, docemente
sombras daquilo que são.
E o sentir do pensamento
de tudo e nada um bocado
só me deixa ser poeta
nesta ilha abandonado.
Mas se eu morrer um dia
perdoem a heresia
e rezem uma ermida
àquela santa da vida

***
Nas horas de partida acende-se um rasto
O sítio presente desfaz-se num astro distante
O ausente ganha forma de sulco na terra
Parecem sonhos os sonhos lavrados no instante minado de adeus
Sementes visitadas pela mãe lua
Ruas vazias de desgaste arrastado na cheia
E como se isso não bastasse
Está tudo tão perto que não se chega nunca
A realidade é um deserto no horizonte
E a partida apenas um poente
Tão incerto e evidente para quem fica
No seu regresso de imaginação ferida
Nos seus versos perdidos na partida
Quando as horas demoram no remorso dos sinos
Na sirene do navio.

Pedro Monteiro,
in O Poeta,
Pico, edição do autor, 1991.
     



Pedro Monteiro – Monteiro, Pedro Miguel (1966) professor, ator, natural de Faro, açoriano de afeição, trabalhou na cidade da Horta, em de São Roque da ilha do Pico e na cidade natal onde reside.