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Poema do Dia: SEMÂNTICA ELECTRÓNICA * Vitorino Nemésio

Comentários de  Celina Vicente e Urbano Bettencourt ;<br />Dito por: Nelson Cabral<br /><br />O Projeto Poema do Dia é uma rubrica da Associação Cultural Despe-te-que-suas em coprodução com Antena 1 Açores, com apoio da Direção Regional da Cultura do Governo dos Açores e que o Blog Comunidades tem a satisfação de (re)transmitir Projeto Poema do Dia


Poema do Dia: SEMÂNTICA ELECTRÓNICA * Vitorino Nemésio
SEMÂNTICA ELECTRÓNICA
 Vitorino Nemésio

Ordeno ao ordenador que me ordene o ordenado
Ordeno ao ordenador que me ordenhe o ordenhado
Ordinalmente
Ordenadamente
Ordeiramente.
Mas o desordeiro
Quebrou o ordenador
E eu já não dou ordens
coordenadas
Seja a quem for.
Então resolvo tomar ordens
Menores, maiores,
E sou ordenado,
Enfim — o ordenado
Que tentei ordenhar ao ordenador quebrado.
— Mas — diz-me a ordenança —
Você não pode ordenhar uma máquina:
Uma máquina é que pode ordenhar uma vaca.
De mais a mais, você agora é padre,
E fica mal a um padre ordenhar, mesmo uma ovelha
Velhaca, mesmo uma ovelha velha,
Quanto mais uma vaca!
Pois uma máquina é vicária (você é vigário?):
Vaca (em vacância) à vaca.
São ordens…
Eu então, ordinalmente ordeiro, ordenado, ordenhado,
Às ordens da ordenança em ordem unida e dispersa
(Para acabar a conversa
Como aprendi na Infantaria),
Ordenhado chorei meu triste fado.
Mas tristeza ordenhada é nata de alegria:
E chorei leite condensado,
Leite em pó, leite céptico asséptico,
Oh, milagre ordinal de um mundo cibernético!