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Romper das águas
Artur Goulart

Romper das águas Artur Goulart

<br /> Tela <i>O Berço</i> (1842),de<br /> Berth Morisot (1841-1895).<br /> Museu D`Orsay,Paris<br />

Romper das águas

Quando eu nasci, o tempo

de nascer ainda não tinha chegado.

Dizem que nem unhas tinha,

só arremedos de sobrancelhas,

olhos bordados de espanto

entre o esgar e o sorriso.

A incubadora que me esperava

era a quentura dos braços de minha mãe

e o olhar apoquentado e terno de meu pai.

O destino tocava um minueto

no piano desafinado da casa do meu avô

e o meu tio padre exorcizava

diabólicas venturas e sacros devaneios.

Ainda hoje, que já percorri

mundos e mares e que a ilha me comove

vigilante de horizontes,

no amor que me consome,

aguardo, sem pressas,

o tempo de nascer.

Sobre o poeta Artur Goulart .

É natural das Velas, São Jorge, leccionou em Angra, foi Chefe de Redacção do jornal “A União” e, mais tarde, foi Director do Museu de Évora. É um especialista em Arte Sacra e tem sido o responsável pelo levantamento do tesouro artístico da arquidiocese de Évora. É autor de vários trabalhos no domínio da arte sacra. É também poeta com obra dispersa, mas sobretudo com muita criação inédita.