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Silvio, “A Alcipe”. Joseph Haydn – (c/áudio) Olegário Paz

Açorianidade – 254 {Silvio, “A Alcipe”. Joseph Haydn, “Sinfonia nº 43 – Adagio}

PorqueHojeEhSabado
2015.10.31





A Alcipe

[…] 


[…]. Canta o Sol, a actividade

Dos seus raios ardentes que a viveza

De teus esgares rastrear presume:

De Phebe canta a placida beleza,

Retratada no mar ao próprio lume:

Canta a estrella da Deosa que a victoria

Cedera por não ter de ti ciúme:

Canta os Marcios troféos, adonte a gloria

Dos Almeidas envolta, só lhe falta

Que a tu mostres ás Filhas da Memoria:

Canta a Alcipe; não temas que reprove

A Deosa da Modestia. Que mimosa

Imagem a Verdade riscaria

De Pandora em Alcipe! Que harmoniosa

Nos beiços lhe soara a Poesia!

Que graças novas á Virtude dera!

Que meigo o Amor nas mãos lhe ficaria!

Nem sejas com as Musas tão severa

Que as desames, dos olhos espantada

Da que assim te persegue horrenda fera;

É filha da ignorancia, alimentada

Das próprias carnes, que c’o negro dente

Raivosa morde, e a espuma envenenada

Em vão te cospe. Phebo não consente

Que te manche: na lyra victoriosa

Quebra os dentes a Inveja inutilmente.

Assovie co’a língua sanguinosa,

Raive até que arrebente. Á sombra amena

Os beiços trilhe a flauta numerosa,

Abra Alcipe a suave cantilena.

Silvio,

In Obras Poéticas da Marquesa de Alorna,
Imprensa Nacional, Lisboa, 1844-1851.

Tio de Almeida Garrett, foi o primeiro bispo nascido nos Açores a exercer aí a sua missão.




Sílvio é pseudónimo de Frei Alexandre da Sagrada Família* (1737-1818), bispo, natural da então Vila da Horta, ilha do Faial. Trabalhou em Luanda e Angra do Heroísmo onde veio a falecer.