O diretor do Museu da Graciosa, nos Açores, sugeriu este domingo a criação de um centro de investigação dedicado ao piano e à partitura, para “aprofundar mais” o conhecimento sobre este instrumento, que tem particular expressão na ilha.
“Nós temos vontade de criar um espaço, de criar uma sala, onde se pudesse acolher estes instrumentos históricos [os pianos], aprofundar mais a sua investigação, conseguir fazer um levantamento exaustivo do percurso que estes pianos fizeram desde que saíram da fábrica onde foram produzidos até chegarem à Graciosa e que utilidade eles tiveram até aos dias de hoje”, defendeu Fábio Mendes, em declarações à agência Lusa.
Segundo o responsável, a ilha do grupo Central dos Açores, com 60 km2 de área e cerca de 4.000 habitantes, terá “entre 120 e 130 pianos”, sendo que nove foram doados ao museu.
“E quando falamos do culto do piano e da tradição pianística da Graciosa, não estamos a falar apenas de pianos históricos, de instrumentos físicos, digamos assim”, alertou.
E prosseguiu: “A acompanhar estes instrumentos existem espólios particulares de partituras, com centenas e centenas de partituras, muitas delas manuscritas, que também correm o risco de se perderem.”
A sua vontade era criar futuramente no museu um centro de investigação “dedicado não só ao piano, mas também à partitura” e às personalidades que tocaram estes instrumentos musicais.
“E, como é lógico, tínhamos todo o interesse em ter um instrumento tocável, recuperado a 100%, que permitisse também dar vida, porque o património tem que ser uma coisa viva, não é uma coisa que está fechada numa vitrina e que não se pode interagir com ela”, vincou.
Na sua opinião, como apenas um dos nove pianos do museu está funcional, só fará sentido concretizar o projeto quando o museu tiver um piano recuperado a 100% e “que possa ser tocado, que possa ser ouvido e partilhado com todos”.
De acordo com Fábio Mendes, na ilha “existem ainda umas boas dezenas de pianos” e a maior parte dos exemplares históricos não está ainda no museu: “Nós só temos nove. Existem dezenas, ainda, nas suas casas originais ou na posse dos herdeiros originais e, acima de tudo, interessa que esses instrumentos não sejam perdidos.”
O diretor apelou aos proprietários de pianos históricos que considerem fazer uma doação, seguindo o exemplo do que já tem acontecido com outros conterrâneos.
Neste verão o espaço museológico recebeu dois instrumentos “belíssimos”, sendo um americano e outro francês (fabricado em 1900, que pertenceu à pianista Helena Pires Camacho).
“E todos eles contam, quer através do proprietário ou de quem o usou, ou do próprio percurso do piano, uma história. Fazem parte da memória coletiva da identidade dos graciosenses e ajudam a aprofundar o conhecimento de todos sobre a história, sobre o património cultural desta ilha”, defendeu.
Ainda de acordo com o responsável, dada a existência de tantos instrumentos desta categoria, a Graciosa ganhou o cognome de “ilha dos pianos” e vai acolher, em novembro, uma residência artística, orientada pela pianista Joana Gama, que criará um percurso musical pelo centro da vila de Santa Cruz da Graciosa.
“Vamos ter a oportunidade de fazer esse passeio musical e de ouvir alguns pianos históricos que se localizam em alguns edifícios públicos e também em casas particulares”, referiu.
Fábio Mendes acredita que a iniciativa será “muito interessante”, e permitirá dar vida a instrumentos que “estão em fase final de vida” e conhecer melhor o património móvel e imóvel da vila de Santa Cruz, classificada desde 1988 para efeitos de defesa paisagística e cultural.
– António Sá Rodrigues I Agência Lusa –