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De uma lenda faialense

De uma lenda faialense

Crónica de Victor Rui Dores

Ontem, como hoje, os Açores sempre foram cobiça de apetites vorazes… 

Depois de povoado, este arquipélago conheceu, entre os séculos XVI e XIX, a feroz
incursão de piratas argelinos e turcos (a que os populares erradamente chamavam de “mouros”),
mas também de corsários franceses, ingleses e holandeses que atacavam indiscriminadamente
estas ilhas, pilhavam, roubavam, saqueavam, incendiavam igrejas e searas, profanavam templos,
levavam cativos, violavam mulheres, etc. 
Antes e depois da construção de fortes nas ilhas, os insulares defendiam-se conforme
podiam: à pedrada e à paulada, havendo notícia de que, por exemplo, nas ilhas mais pequenas e
desprotegidas, as pessoas mal avistavam barcos piratas na linha do horizonte começavam logo a
ferver água ou azeite para derramar sobre os intrusos. 
Ficaram no léxico açoriano expressões como: “Há moirama na costa”, “És um corsário!”,
“És um(a) corsairinho(a)”, “Aí vêm os Catalunhos!” (esta última ouvi-a na ilha do Corvo). Nas ilhas
de Santa Maria e Graciosa ainda hoje se pode ouvir “Buei!” ou “Ubei!”, exclamação de espanto e
de indignação. Buei era o nome de um temível chefe de piratas da Mafoma. 
De uma lenda faialense
É neste contexto que surge a lenda da Coroa Real dos Cedros. Como toda e qualquer lenda,
também esta reflete uma circunstância geográfica (ilha do Faial) e uma circunstância histórica (o
domínio filipino). 
Conta-se que um grupo de piratas, comandados pelo seu rei mouro, atacou a ilha do Faial.
Os faialenses defenderam-se tenazmente e conseguiram fazer com que os piratas abandonassem
a ilha sem levarem a cabo as pilhagens habituais.
Na precipitação da fuga, o rei mouro esqueceu a sua coroa, que era magnifica, em prata,
enfeitada ao redor com ramos lavrados. Já em viagem, o rei deu por falta dela e lembrou-se que a
tinha deixado na ilha. O barco rumou novamente em direção ao Faial em busca do precioso
objeto. 
Disfarçadamente os piratas procuraram por onde puderam, indagaram junto de algumas
pessoas, mas nada encontraram e abandonaram a ilha para nunca mais voltar. 
Ora, uma mulher da freguesia dos Cedros, que tinha encontrado e guardado a referida
coroa, ao saber que os piratas estavam de volta à procura do símbolo real, tratou de escondê-la o
melhor possível. Não vendo sítio mais seguro e, como era coroa aberta, sem hastes e do feitio de
um anel, enfiou-a numa perna (como quem enfia uma aliança), alojando-a numa coxa, e aí a
conservou até ter a certeza de que o rei se fizera ao mar. 
Passado algum tempo a perna da mulher inchou e, quando quiseram tirar a coroa, ela não
saía… Puxaram de um lado, puxaram do outro, lavaram a perna com água e sabão de cinza para a
pele ficar mais escorregadia, mas a coroa não saiu. Sem outra solução à vista, optaram por cortar a
coroa para a poderem tirar. Depois soldaram-na cuidadosamente e o riquíssimo objeto ficou como
pertença da freguesia dos Cedros, onde atualmente ainda se encontra, sendo guardada todos os
anos em casa do mordomo do Espírito Santo. Nela pode ainda ver-se, num dos lados, o lugar onde
foi cortada e soldada para poder sair da perna da mulher que a havia guardado cautelosamente. 
Trata-se, obviamente, de uma lenda. Mas, com dizem os italianos, “se non è vero, è ben
trovato”…