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Dia da Entrada Geral da Base

Dia da Entrada Geral da Base

Crónica de Victor Rui Dores

                                                                                ao meu irmão Raimundo Dores 

Naquele tempo esperávamos, com ansiedade, pelo 12 de junho – Dia da
Entrada Geral da Base Aérea nº 4, nas Lajes, ilha Terceira. Mal ultrapassávamos o
Posto 1, era como se partíssemos em busca do pote de ouro para lá do arco-íris… 
Parecia que estávamos na América, porque cheirava a “sprite” e “coca-cola” e
tudo tinha um ar de festa. É que naquele dia os militares franqueavam as portas da
Base ao grande público, que caía em peso naquele cantinho vedado ao comum dos
mortais. Os americanos, envergando uniformes impecáveis e sapatos de verniz,
recebiam-nos, delambidos e com sorrisos rasgados… E promoviam visitas guiadas a
várias instalações da Base, oferecendo-nos saborosíssimos ice-creams de baunilha,
bem como chocolates “Hershey´s”, “Snickers”, “Three Musketeers” e “Butterfinger”. 
O Dia da Entrada Geral da Base funcionava como um desfastio que vinha
quebrar a monotonia dos nossos dias pardacentos. Caminhávamos, tresmalhados,
sobre o asfalto da pista de aterragem, visitando as entranhas de aviões, helicópteros
e carros de bombeiros. Mas a maior atração era, sem dúvida, o colossal “Lockheed
C-5 Galaxy“, na altura a maior aeronave do mundo. Entrávamos, inseguros, no seu
bojo e ficávamos de boca aberta de espanto! E havia outras aeronaves, dentro e
fora dos hangares, que aguardavam a nossa visita. Poder estar no interior do cockpit
de um avião era, na altura, uma experiência inaudita. 
Naquele dia era-nos também oferecida a possibilidade de viajarmos em
barcaças norte-americanas na baía da Praia da Vitória. Para tal saíam da Base, com
regularidade, vários autocarros (que eram azuis) com destino à então vila da Praia. 
Dia da Entrada Geral da Base
No dia da Base Aberta, era-nos explicado o significado dos lemas dos
militares: “Always ready”, para os americanos; “Para que outros vivam”, para os
portugueses. Ficávamos depois a saber das missões por eles levadas a cabo:
operações de busca e salvamento, evacuações sanitárias e operações de vigilância
marítima, no domínio civil; das operações do âmbito estritamente militar, pouco
adiantavam para além da referência de missões ligadas ao transporte aéreo tático,
até porque bem longe dali desenrolava-se a Guerra do Vietname… 
Sentíamos, na Base das Lajes, o pulsar da civilização. Foi ali que bebi a minha
primeira “coca-cola” (refrigerante que só após o 25 de abril de 1974 entraria no
mercado português). Por todo o lado havia convívio, animação musical e exposições,
uma das quais dava nas vistas por apresentar uma panóplia de material bélico
sofisticado, revelador do glorioso poderio norte-americano. 
As visitas iam chegando ao fim. E, regalados da vida, saíamos das instalações
da Base a trincar chupa-chupas com sabor a groselha. 
“Abençoada América que tantos favores nos fazes”, escreveria, mais tarde, o
poeta J. H. Santos Barros.